O fim da leitura de "Gilberto Braga: O Balzac da Globo" deixa um amargo

   


    Não é à toa que Gilberto Braga é comparado ao Balzac, o fundador do realismo na literatura moderna, afinal, o novelista trouxe um novo ar para as telenovelas brasileirinhas ao abordar com tanta fidelidade a realidade das classes A e B. Claro que tudo isso que eu disse já é batido e você encontra em qualquer canto da internet. Só que é sempre bom lembrar que entre nossos escritores de novelas, existem grandes nomes, como o de Gilberto Braga.

A biografia que teve sua escrita iniciada pelo jornalista Artur Xexéo com Gilberto Braga em vida, teve que ser continuada e concluída por outro jornalista, Mauricio Stycer, após a morte do primeiro. Isso é explicado rapidamente logo quando começamos a nossa leitura, mas não interfere na construção do livro que, como uma boa novela, é dividido em duas fases.

Na primeira parte da biografia do Balzac global, vamos nos aprofundar nos antecedentes familiares de Gilberto, na sua infância, na sua adolescência e na sua vida profissional antes de se tornar roteirista. Sabia que ele era professor de francês e também era crítico de teatro? Eu sabia da primeira informação, da segunda nem fazia ideia. Durante essa primeira parte, vamos entender melhor como se deu essa formação do Gilberto porque ele sempre foi considerado uma pessoa muito culta, com muitas referências do cinema clássico, de boa música e bom teatro. Isso sempre refletiu muito bem em suas obras.

Na segunda parte do livro, já entra na parte em que vamos acompanhar os bastidores das suas obras escritas para a televisão, para a Rede Globo que foi a sua casa desde o seu primeiro trabalho, um episódio de um programa chamado Caso Especial. Para quem gosta do gênero telenovela e do trabalho do autor, vai ser um parque de diversões essa leitura, assim como foi para mim. Vamos acompanhar o que levou ele a ter certa ideia, o motivo pelo qual levou tal novela a ser produzida do jeito que foi e como ele lidou com algumas adversidades, principalmente em títulos que não deram tão certo.

Gilberto, com certeza, é uma figura muito interessante e não apenas pela sua contribuição para o gênero, mas como ele levava a sua vida pessoal. Não é atoa que muitas pessoas diziam que ele sempre foi um homem a frente do seu tempo e corajoso. Só de saber que ele, durante a década de 70 e pela frente, conseguiu fazer com que as pessoas aceitassem que ele e o seu marido, Edgar, formavam um casal e moravam juntos e eu não digo apenas de familiares, mas ser reconhecido em notas de aparições em festas e eventos, é uma figura muito poderosa. Juntos eles romperam várias barreiras e, claro, Gilberto justificava isso da sua maneira e que é uma verdade, afinal eles tinham dinheiro e quando se tem dinheiro, ainda mais um século atrás, você praticamente podia tudo. Esse fato não tira, de jeito nenhum, a coragem que esse homem teve.

Como biografia, eu senti que faltou, na segunda parte do livro, mais fatos sobre a vida pessoal do autor. Lemos sobre como tal novela surgiu, o que o Gilberto achava da novela, declarações de atores e diretores que estavam na produção, termina a novela, ele e o marido saem de férias. Talvez isso se dê porque quando um autor de novela está escrevendo, mesmo com muitos colaboradores como Gilberto fazia, a sua vida era focada apenas nisso. Não estou reclamando, mas estou apontando uma coisa que depois que eu terminei de ler, percebi.

Ao terminar minha leitura, não posso deixar de não dizer isso, fiquei com um gosto amargo na boca. Não por culpa do autor da biografia, mas pelo o que ele relata no final desse livro. O livro termina com a azarada “Babilônia”, última novela escrita pelo novelista e que eu chamo de azarada porque eu acredito que tenha sido uma história produzida em uma época errada. Foi uma novela que enfrentou inúmeros problemas, a suposta rejeição do público ao primeiro capítulo por causa do beijo entre as personagens da Fernanda Montenegro e da Natália Timberg, além do aumento da concorrência com a estreia de “Os Dez Mandamentos” na Record.

Eu digo que fiquei um gosto amargo pela forma que a Rede Globo tratou o autor após esse episódio. Gilberto teve uma série sobre a Elis Regina engavetada e depois duas novelas engavetadas, a primeira era um remake de “Brilhante” para as 23 horas e outra, uma novela das seis que ele começou a escrever ao lado de Denise Bandeira, baseada na obra “Feiras de Vaidades” do romancista inglês William Makepeace Thackeray. Eu compreendo que foi uma crise sem precedentes a qual Gilberto enfrentou durante a sua última novela, mas acho que foi muita desconsideração da Rede Globo tratar o autor  da maneira que tratou.

Além do gosto amargo, também termino a minha leitura com a certeza de que não vai haver, talvez tão cedo, outro autor de telenovelas como Gilberto Braga. Podem tentar emular sua maneira de escrever, mas assim como grandes escritores da nossa literatura e dramaturgia, Gilberto foi único e será por muito tempo.

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